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Manuel Congo

20/01/2021

Por volta de 1800, a economia nacional girava em torno do Vale do Paraíba, haja visto o esgotamento do ouro nas Minas Gerais. Os cafezais de Vassouras eram responsáveis por cerca de 70% do café exportado pelo Brasil e a cidade, naquela época, abrangia diversos territórios como as atuais cidades de Mendes, Miguel Pereira, Paty do Alferes e parte de Paracambi.

Essa intensidade econômica causava, infelizmente, uma grande necessidade de mão de obra escrava. Esses escravos eram comprados de outros estados ou importados diretamente da África. Dessa forma, na medida que a popuação de Vassouras ia crescendo, aumentava muito mais a população de escravos, chegando esta última a ser muito superior ao número de pessoas livres (brancas ou não). Com esse cenário, havia um grande temor de que esses escravos se rebelassem, o que poderia ser incontrolável.

Havia na freguesia de Paty do Alferes, dois escravos cujos nomes entrariam para a História: Manuel Congo e Mariana Crioula.

O primeiro, homem forte e habilidoso, ganhou o nome aportuguesado Manuel, como de costume seguido da sua nação de origem. Pertencia ao capitão-mor Manuel Francisco Xavier, açoriano, proprietário das fazendas Santa Tereza, Maravilha e Freguesia, esta última atual Aldeia de Arcozelo.

Por ser ferreiro, profissão diferenciada dos escravos que trabalhavam simplesmente na lavoura, tinha mais status perante os demais escravos e consequentemente mais valor financeiro para seu proprietário.

Já Mariana Crioula, escravizada nascida no Brasil, como indica seu nome, era costureira e mucama (preta de estimação) da senhora Francisca Elisa Xavier, esposa do capitão Manuel Francisco Xavier. Apesar de casada com um escravo da lavoura, Mariana vivia e dormia na casa grande, o que também lhe conferia apreço e status.

Em novembro de 1838, um escravo de nome Camilo Sapateiro foi assassinado a tiros pelo capataz da Fazenda Freguesia, pois estava indo sem autorização para a Fazenda Maravilha. Tal ato gerou grande repercussão e clima de revolta nas senzadas das duas fazendas, culminando numa rebelião, ocorrida por volta da meia noite, na fazenda Freguesia, onde cerca de 80 escravos arrombaram a porta da senzala, arregimentaram as escravas da casa grande e se armaram com facões e uma velha garrucha, retirados do depósito.

Os revoltosos fugiram e se esconderam nas matas da fazenda Santa Catarina, seguindo mata fora até a fazenda da Maravilha onde colocaram uma escada na janela da cozinha para que as escravas domésticas que lá dormiam pudessem também fugir; abriram as senzalas e chamaram os outros escravos para se juntarem a eles; arrombaram depósitos de mantimentos e finalmente fugiram com todas ferramentas e mantimentos que puderam carregar. No caminho, o grupo ainda passou pela fazenda Pau Grande, onde libertou mais escravos das senzalas. Neste momento, os fugitivos já eram mais de cem, a maior parte armada com facões e outras armas cortantes.

Sabendo da revolta em curso, vários escravos também fugiram das fazendas São Luís da Boa Vista, Cachoeira, Santa Teresa, Monte Alegre, e outras mais. Em torno de 300 a 400 escravos seguiram pelas matas então cerradas da Serra da Estrela, a caminho da Serra da Taquara. Algum planejamento prévio pode ter ocorrido, pois foi rápida a adesão de escravos das outras fazendas e houve pontos de encontros nas matas para os vários grupos.

Manuel Congo e Mariana Crioula, futuramente delatados como "rei e rainha" da maior revolta de escravos ocorrida no Vale do Paraíba, certamente foram os principais articuladores e líderes desse movimento.

Não sabia-se qual era a intenção do grupo, mas de fato não parecia ser causar violência, ou até mesmo a formação de um quilombo, pois oportunidades não faltaram para o grupo atacar outras construções ou pessoas brancas. Acredita-se que a revolta objetivava a negociação por melhores condições de trabalho, o que não era incomum na época, como uma espécie de "greve". Ainda assim, tendo em vista a grande e rápida adesão e as possibilidades que daí poderiam advir, houve grande temor por parte da sociedade vassourense.

Para captura dos escravos, o capitão Manuel Francisco pede auxílio à Guarda Nacional, na pessoa do coronel-chefe da 13ª Legião, Francisco Peixoto de Lacerda Vernek, futuro barão de Paty do Alferes, pedindo-lhe providências, em prol "da ordem e do sossego público". A 13ª Legião da Guarda Nacional era sediada em Valença e também mantinha a ordem pública nas vilas de Vassouras e Paraíba do Sul.

Em 48 horas, já estavam reunidos cerca de 160 homens da Guarda Nacional, sob comando do coronel Lacerda Vernek, bem armados e prontos para a luta. Ao mesmo tempo, o presidente da província do Rio de Janeiro foi informado do ocorrido e presta auxílio. A tropa, acompanhada pelo juiz de paz José Pinheiro, reuniu-se na fazenda Maravilha no dia 10 de novembro e no dia seguinte partiu em perseguição aos escravos revoltosos, com certa facilidade até, pois os fugitivos caminhavam tendo que abrir picadas na densa mata que então existia na região.

No dia 11 de novembro, às 5 horas da tarde, depois de algumas léguas e horas de busca, haviam descoberto o grupo principal de fugitivos que avançava mais lentamente com crianças, velhos e mulheres. Percebendo que foram alcançados, o grupo se preparou para o combate com o que tinham em mãos, porém, como é de se esperar, foram massacrados, conforme registrou o Coronel Lacerda Verneck:

os escravos "fizeram uma linha", e pegaram as armas, "umas de fogo, outras cortantes", e gritaram: "Atira caboclo, atira diabos". Este insulto foi seguido de uma descarga que matou dois dos nossos e feriu outros dois. Quão caro lhes custou! Vinte e tantos rolaram pelo morro abaixo à nossa primeira descarga, uns mortos e outros gravemente feridos, então se tornou geral o tiroteio, deram cobardemente costas, largando parte das armas; foram perseguidos e espingardeados em retirada e em completa debandada."(…)"Notei que nem um só fez alto quando se mandava parar, sendo preciso espingardeá-los, pelas pernas. Uma crioula de estimação de Dona Francisca Xavier não se entregou senão a cacete, e gritava: "morrer sim, entregar não!!!"

Os sobreviventes foram cercados e obrigados a se render. Neste único combate foram presos o "rei" Manuel Congo e a "rainha" Mariana Crioula.

Não se conseguiu capturar um grupo de fugitivos comandado por um certo João Angola, que escapou do combate por não ter comparecido ao ponto de encontro com o grupo de Manuel Congo. Já outros grupos vagaram pela floresta durante dias até que a fome os obrigou a voltar. Os escravos fugitivos saiam das matas e procuravam uma fazenda próxima a de sua fazenda de origem, cujo proprietário fosse conhecido por tratar bem os escravos. Então pediam a ele que os "apadrinhasse", isto é, que os escoltasse de volta à fazenda de origem.

Posteriormente, no dia 14 de novembro, chegou uma tropa de 50 homens do Exército, a Polícia de Niterói, enviada pela presidência da província do Rio de Janeiro. O comando era do tenente-coronel Luís Alves de Lima, futuro Duque de Caxias.

Dos cerca de 300 escravos fugitivos, 16 foram levados a julgamento: Manuel Congo, Pedro Dias, Vicente Moçambique, Antônio Magro, Justino Benguela, Belarmino, Miguel Crioulo, Canuto Moçambique, Afonso Angola, Adão Benguela, Marianna Crioula, Rita Crioula, Lourença Crioula, Joanna Mofumbe, Josefa Angola e Emília Conga. Todos eram escravos do capitão-mor Manuel Francisco Xavier. Dessa forma o capitão foi indiretamente punido pelos outros fazendeiros por não ter controlado seus escravos, balançando assim o frágil equilíbrio social da próspera região.

Os réus foram conduzidos em ferros para serem julgados em Vassouras, a então vila a que estava subordinada a então freguesia de Paty do Alferes. Da manhã de 22 de janeiro de 1839 até o dia 31 do mesmo mês, o tribunal se reuniu na Praça da Concórdia, atual Praça Barão do Campo Belo, diante da Igreja Matriz da Vila de Vassouras. O julgamento foi presidido pelo juiz interino Inácio Pinheiro de Souza Verneck, irmão do juiz de paz José Pinheiro de Souza Vernek e, portanto, também primo do coronel Lacerda Vernek.

A participação de Mariana Crioula na rebelião causou furor no julgamento, pois ela era "uma crioula de estimação de dona Francisca Xavier" que, como narrou o coronel Lacerda Vernek, só se entregou "a cacete" depois do combate e ainda gritando: "morrer sim, entregar não!!!".

Ao que tudo indica, durante o julgamento, decidiram não aumentar muito as perdas do capitão-mor Manuel Francisco Xavier, que já tinha perdido sete escravos mortos no combate. Pelo acordo feito, apenas o líder da rebelião seria condenado pela morte em combate dos dois soldados da Guarda Nacional. Todos os réus indicaram Manuel Congo como líder do levante, sendo ele, portanto, condenado ao enforcamento.

Outros sete réus foram condenados a "650 açoites a cada um, dados a cinquenta por dia, na forma da lei", e a "três anos com gonzo de ferro ao pescoço". A maior surpresa foi a absolvição de Mariana Crioula e todas as mulheres, certamente a pedido de sua proprietária Francisca Elisa Xavier. Entretanto, Mariana Crioula ainda foi obrigada a assistir à execução pública do seu companheiro de luta Manuel Congo.

No dia 4 de setembro de 1839, Manuel Congo subiu ao cadafalso no Largo da Forca para cumprir sua “pena de morte para sempre”: isto é, foi enforcado e ficou sem sepultamento.

O Largo da Forca, é o atual Largo da Pedreira, em Vassouras. Neste local, foi construído, em 1996, o Memorial de Manuel Congo.

 

Equipe Guia Turístico Visite Vassouras

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